Tudo começou com uma viagem, algo como uma lua de mel. Estradas de terra, um que de uma viagem alternativa demais, ora nos carros, mas onde ficar, isso eles não sabiam, queriam ficar um pouco a sós e desfrutar os tão esperados momentos de ternura e desejo.
Mas acabaram novamente nos braços da família. Não sei como é que foram parar naquela outra casa, não me lembro bem e não é sempre que contam os detalhes, mas éramos nós dois que acabamos nos tornando vários. Até que estávamos, que estavam – pois tive de deixar de ser eu, então- então naquela casa. Eles, o casal, a tia e mais alguém, que logo se tornou um pequeno cão. Havia mais alguém, de certo, mas não me lembro como partiu. A tia, dele ou dela? Ela queria protegê-la. Cabelos negros e ondulados, uma franja suave no rosto, não era mais eu.
A tia queria protegê-la a qualquer custo, ela sabia que ele tentaria então tirar a vida dessa moça que não era mais eu, e enquanto eles ficaram em uma discussão implícita, pequenas regras de detalhes que eram sempre ditos por metáforas, a moça permanecia ao lado, levemente enferma e inconsciente, parecia, de suas brigas e do perigo que corria.
Um pequeno objeto laranja, que poderia ser o remédio, saiu das mãos do rapaz e passou a ser disputado pela cão e pela tia, atirado pelos lados. Na tentativa de afastar o cão da casa, ela o arremessa, ele sai atrás do objeto, é a tia e o cão quem briga pelos dois: a tia pela moça, o cão aliado ao rapaz – você. Moça e rapaz não intervém, estão quietos à mesa. Ele finge que não sabe, se todos sabem que é um jogo e faz parte de seu papel esse fingir então não saber. A tia também luta sem deixar nada claro, as coisas em que não podem ser jamais ditas e que no entanto regem toda a situação. A moça a princípio não sabe de nada, está em um estado que lembra enfermidade, é verdade, mas fora isso ainda não sei nada dela, precisei sair totalmente e passo a ver as emoções de todos, menos as dela. E eles a tratam como precisando de um cuidado.
A tia arremessa o objeto para fora, o cão vai atrás, ela corre para fechar uma das portas e m seguida a outra, do outro lado, onde o cão já tentava retornar. Ela fecha a porta e o cão fica para fora, quando parece que tudo se resolve, mas ela fecha a porta e ela fica trancada para fora.
Ela senta-se, e faz parte de uma suposta função, dada sua situação, ele servi-la. Sentam-se quase frente a frente, ele lhe serve algo para comer, uma sopa, e enfim o copo de água com o veneno. Ela é serena; ele, resoluto. Olhos nos olhos travam um pequeno diálogo. Com serenidade, sem culpa e tampouco sentindo-se vítima, ela enfim lhe pergunta se ele a queria envenenar, olhos nos olhos: ele lhe diz que não. Posso ver então que não seriam justificáveis a intenção do tal rapaz, e ela sabe, agor aeu sei que ela sabe, com sabe também das intenções e que a resposta lhe dada era falsa. Momento entre caótico e sublime aquele em que os jogos implícitos vão sendo substituídos pela clareza. Ela não é vítima, não quer ser mártir e tampuco sente-se culpada, mas aceita, desde sempre, convém lembrar, aceita então e, em um pacto silencioso ela simplesmente aceita, olhares se olhando, ela bebe. Ele se precipita.
“Não toma. É arsênico.”
Ela engole.
Olhos nos olhos, ela não engole, ele a pede que o cuspa, ela reclama do gosto. Ele vai até ela com um pedaço de guardanapo, ela cospe o líquido no papel que está ainda na mão dele.
Ele limpa toda a mesa, troca as louças e as comidas e está a servindo com duas xícaras pequenas, cada uma de uma cor, quando a tia e o cão voltam. A tia, então, é a tia dele e a briga com o cão havia cessado e eles podem enfim sentarem-se todos, para comer.