domingo, 14 de dezembro de 2008

"Não toma. É arsênico"

Tudo começou com uma viagem, algo como uma lua de mel. Estradas de terra, um que de uma viagem alternativa demais, ora nos carros, mas onde ficar, isso eles não sabiam, queriam ficar um pouco a sós e desfrutar os tão esperados momentos de ternura e desejo.

Mas acabaram novamente nos braços da família. Não sei como é que foram parar naquela outra casa, não me lembro bem e não é sempre que contam os detalhes, mas éramos nós dois que acabamos nos tornando vários. Até que estávamos, que estavam – pois tive de deixar de ser eu, então- então naquela casa. Eles, o casal, a tia e mais alguém, que logo se tornou um pequeno cão. Havia mais alguém, de certo, mas não me lembro como partiu. A tia, dele ou dela? Ela queria protegê-la. Cabelos negros e ondulados, uma franja suave no rosto, não era mais eu.

A tia queria protegê-la a qualquer custo, ela sabia que ele tentaria então tirar a vida dessa moça que não era mais eu, e enquanto eles ficaram em uma discussão implícita, pequenas regras de detalhes que eram sempre ditos por metáforas, a moça permanecia ao lado, levemente enferma e inconsciente, parecia, de suas brigas e do perigo que corria.

Um pequeno objeto laranja, que poderia ser o remédio, saiu das mãos do rapaz e passou a ser disputado pela cão e pela tia, atirado pelos lados. Na tentativa de afastar o cão da casa, ela o arremessa, ele sai atrás do objeto, é a tia e o cão quem briga pelos dois: a tia pela moça, o cão aliado ao rapaz – você. Moça e rapaz não intervém, estão quietos à mesa. Ele finge que não sabe, se todos sabem que é um jogo e faz parte de seu papel esse fingir então não saber. A tia também luta sem deixar nada claro, as coisas em que não podem ser jamais ditas e que no entanto regem toda a situação. A moça a princípio não sabe de nada, está em um estado que lembra enfermidade, é verdade, mas fora isso ainda não sei nada dela, precisei sair totalmente e passo a ver as emoções de todos, menos as dela. E eles a tratam como precisando de um cuidado.

A tia arremessa o objeto para fora, o cão vai atrás, ela corre para fechar uma das portas e m seguida a outra, do outro lado, onde o cão já tentava retornar. Ela fecha a porta e o cão fica para fora, quando parece que tudo se resolve, mas ela fecha a porta e ela fica trancada para fora.

Ela senta-se, e faz parte de uma suposta função, dada sua situação, ele servi-la. Sentam-se quase frente a frente, ele lhe serve algo para comer, uma sopa, e enfim o copo de água com o veneno. Ela é serena; ele, resoluto. Olhos nos olhos travam um pequeno diálogo. Com serenidade, sem culpa e tampouco sentindo-se vítima, ela enfim lhe pergunta se ele a queria envenenar, olhos nos olhos: ele lhe diz que não. Posso ver então que não seriam justificáveis a intenção do tal rapaz, e ela sabe, agor aeu sei que ela sabe, com sabe também das intenções e que a resposta lhe dada era falsa. Momento entre caótico e sublime aquele em que os jogos implícitos vão sendo substituídos pela clareza. Ela não é vítima, não quer ser mártir e tampuco sente-se culpada, mas aceita, desde sempre, convém lembrar, aceita então e, em um pacto silencioso ela simplesmente aceita, olhares se olhando, ela bebe. Ele se precipita.

“Não toma. É arsênico.”

Ela engole.

Olhos nos olhos, ela não engole, ele a pede que o cuspa, ela reclama do gosto. Ele vai até ela com um pedaço de guardanapo, ela cospe o líquido no papel que está ainda na mão dele.

Ele limpa toda a mesa, troca as louças e as comidas e está a servindo com duas xícaras pequenas, cada uma de uma cor, quando a tia e o cão voltam. A tia, então, é a tia dele e a briga com o cão havia cessado e eles podem enfim sentarem-se todos, para comer.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Puxa com toda a força, para um momento, para o quanto pode: nunca é muito, o ar sempre lhe escapa. Se confunde com um sopro, com todas as questões metafísicas ou naúticas que permeariam os âmagos confusos de uma sereia. Pensamento de gente grande, solta o ar. Uma vida toda em grandes momentos e ele simplesmente não pode deixar de se ater aos detalhes. Têm medo, afinal, medo de perder tudo mais uma vez. Mas não eram sobre nuvens que repousavam os sonhos?

O vento tocando os galhos, as espécies se aprumando a espreita do temporal: nunca se sabe quem pega quem, e os esquilos continuam saltitantes com suas nozes e gravatas. A coisa toda muda, a natureza como fábula também está prestes a acabar, ele pensa enquanto solta o ar com uma fumaça verdejante.

Quisera então que nossos rostos pudessem ser mais que vidro e que por um mísero segundo nossos olhos se tocassem. Quisera então que sem o menor ruído as estrelas todas nascessem de novo. Vidro espesso prestes a quebrar, natureza rude de orvalho e pedras. Nenhuma palavra do mundo o salva, nada no vácuo o preenche: dentro, uma danaide furiosa está sempre prestes a lhe corroer as vísceras e a confundir os mitos. Uma promessa de novo é feita, mas confiança e medo do que, afinal?

Danaides nunca tem fome, são bichos azedos de caos e fúria - de vácuos eternos.

Existe algo além do que eu veja que não está desmanchando? Oscilo, e oscilo sempre entre grandes - ou entre grades. As canetas pulam sozinhas, as teclas cada vez mais macias, uma menina devorada por uma danaide querendo explodir tudo e na explosão virar enfim estrela num ápice confuso de desejo intenso de coisas plenas uma vez mais.

Tímidos, os pisos se encolhem. Mal sabe eles o quão seguro estão.

A fumaça, ele abaixa e pega a terra nas mãos, lambe os dedos e então pode sorrir de novo.

sábado, 31 de maio de 2008

devir-lagarto

O vento batendo nas janelas, o sol ralo que não aquece e nem importa quantas cobertas. Tampouco importa o quão quente seja a água: um frio mais profundo do que um inverno. Neva, as pessoas petrificam-se e transformam-se em estátuas que a tudo refutam, distantes e disformes. Ausência de corpos, frio mesmo no inferno lotado. Distância dos olharesm que se perdem ao caminhar cada qual ao seu passo. Te bato, com toda a minha força, e sorriem sempre como se fosse de verdade. Mas está tão frio, dedos gélidos que não tocam as partes mais quentes do próprio corpo, corpo que arde no fogo ausente da sua gelidez caótica. Calor de corpos quentes, a alma mesmo parecendo apenas uma estátua agora. Desejo que acomete abruptamente: corpos quentes, brincar de dormir no sol.

quinta-feira, 29 de maio de 2008

O que é uma fábula, senão o tempo de um adeus? Uma mariposa-marionete saltitando entre as luzes: com medo ela é inconstante, se esconde por dentre os véus que os muros sempre cobrem, é claro, não, é claro o bastante que nenhuma dicotomia a fará deixar de sorrir. Ela chora.

Um parênteses: ela quase podia voar. Emsimesmava-se as vezes a tal ponto que podia esquecer-se mesmo imersa em si. Ela poderia então ter virado estrela ou tê-las comigo. Um sorriso, uma promessa de céu azul e ela prefere desperdiçá-las, essas estrelas todas. Talvez a vida não seja um romance, então não precisamos nos resguardar a tal ponto. Nos amaríamos ao ponto de nos perder, mas as mariposas, ah, essas mariposas que sempre voam distante demais...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Andamos recortando nossas frases mais bonitas e colocando-as numa lógica sequencial: pra vender ou pra comer, pergunta o florista com os pés no chão: pra coçar ou pra vingar, o estadista com os pés no asfalto: é pra matar, diz o bêbado com os pés no alto.
É pro jantar?
Vem pra mesa?

Fecharam sem querer, fecharam sem querer de novo: mas era algo muito delicado que repousava ali.
Parecia uma escolha simples: sim ou não, oras, apenas isso - nada de muito profético, nada de muito profundo, definitivamente nada de profano: sim ou não. Mesmo para uma pessoa tão indecisa como eu deveria parecer facilmente concebível a questão. Mas não, tive que destrinchar cada detalhe minúsculo, cada fresta por onde apenas passava cada polo e acabei por invertê-los. Nem a mais decidida das pessoas poderia decidir agora. Faço isso sempre, claro, e devo confessar que, mesmo beirando sempre certa agonia, é quase confortante, minha ilha de pedras - não poderia me aconchegar senão entre minhas crises, disse então.

Mas isso não pode ser sempre, as vezes preciso então de uma clareza que transcenda esses detalhes, e é sempre quando mais preciso que os fatos se emaranham irremediavelmente. Acho que...

hm, a campainha

another day

sábado, 3 de maio de 2008

Mas eu devo confessar que me enganei, afinal: há sempre algo que se deseje acima das crises. Mesmo tamanha inconstância se dá sempre pela metade se há sempre algo em que queremos nos aprofundar. Liberdade, sonho comum e amargo, quisera então poder te compreender melhor. Por ora apenas vislumbros os fatos.